Inspiração pela música

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Confira a entrevista de quem Inspira surdos com a música.

um surdo tocando surdo

parece um absurdo 2x

mas quando um surdo toca o surdo

ele chama mais um surdo

que convida outro surdo

pra fazer um batuque surdo

refrão

quem foi que disse

que a música é só para ouvir

a música basta sentir

pra ser feliz e dançar

e pra dançar

basta sentir a emoção

a música vem do coração

e faz a vida melhorar

refrão

(Batman Griot, Batuque de Surdos)

Um surdo tocando surdo parece um absurdo? Não para o percussionista Irton Mário que, desde 2009, ensina jovens e adultos com todo tipo de deficiência auditiva a tocarem os principais ritmos de nossa cultura popular, entre eles maracatu, frevo, ciranda e samba. Não bastasse o inusitado do seu trabalho, a banda Batuqueiros do Silêncio, como é chamado o seu grupo, tem percorrido o Brasil realizando shows e conscientizando ouvintes e não ouvintes sobre a importância da música na transformação de realidades.

Antes de criar a banda, o músico já havia realizado atividades de musicalização com pessoas em tratamento psiquiátrico, com crianças com Síndrome de Down, Síndrome do Espectro Autista, com cegos e jovens com outros tipos de deficiência intelectual. Ao assistir ao curta “O resto é silêncio”, do carioca Paulo Halm (2003), Mário se sentiu sensibilizado e, em 2009, deu início à sua aventura musical na comunidade surda. Luthier, passou a confeccionar os instrumentos adaptados para os deficientes auditivos. Criou uma metodologia musical própria que apresenta os ritmos de acordo com o apagar e acender de lâmpadas de diferentes tamanhos e cores.

Não por acaso, Irton Mário é conhecido como Batman Griot: do herói, o músico leva o desejo incansável de superar os desafios que se apresentam. E não são poucos. A começar pelos pais de muitos dos alunos, que não entendiam o propósito da música para a vida de jovens que não ouvem. “Para quê?”, se perguntavam. Várias foram as baixas do grupo até, finalmente,  pais, filhos e educadores entenderem o poder da música para aquelas pessoas. Apenas porque, ao contrário do que todos diziam, elas podiam, sim, fazer música para ser ouvida.

Como Griot, que na cultura africana são pessoas com a função de transmitir conhecimento e tradição, pela música e pela contação de histórias, Batman cumpre sua missão: apresentar a cultura brasileira e toda a sua riqueza, de forma única. Para ouvintes e não ouvintes.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Deficiência Auditiva, Batman Griot volta ao tempo, fala como começou, explica os desafios que enfrenta diariamente mas, principalmente, fala de esperança de ver o seu projeto – e outros tantos – alçarem voos mais altos e longos para, principalmente, conscientizar a sociedade que os deficientes auditivos podem fazer o que quiserem. Ainda que muitos digam o contrário. Leia mais, a seguir:

Deficiência Auditiva: O que o levou a criar o Batuqueiros do Silêncio?

Batman Griot: Tudo começou em 2008, quando ainda morava em São Paulo e assisti ao filme “O resto é silêncio”, do carioca Paulo Halm. Esse filme revela que alguns surdos têm curiosidade a respeito das sensações que a música transmite para nós ouvintes e também mostra uma deficiente auditiva que criou uma maneira própria para sentir a música. Isso despertou em mim o desejo de investigar mais a fundo a musicalidade do surdo. Naquela época, eu já havia realizado atividades de musicalização com pessoas em tratamento psiquiátrico, com crianças com a Síndrome de Down, Síndrome do Espectro Autista, com cegos, com jovens com outros tipos de deficiência intelectual e, em 2009, dei início à minha aventura musical na comunidade surda. Através de um projeto que inscrevi no edital “Interações estéticas – residências artísticas em pontos de cultura”, da Funarte/Minc, com o projeto “Som da pele – uma experiência musical que ultrapassa os limites do som”. Escolhi este nome porque, desde a fase de elaboração, eu já sabia que utilizaria recursos luminosos para levar a música até esse público. O projeto foi premiado e, com isso, inscrevi um novo projeto para o edital “Ideias Criativas”, oferecido pela Fundação Palmares, cujo título era “Batuqueiros do silêncio – um batuque de nação promovendo a inclusão”. Da oficina com 25 surdos, surgiu a banda.

D.A: Antes da banda você já convivia com deficientes auditivos?

B.G: Não tinha nenhuma convivência com surdos. Quando cheguei em uma escola bilíngue daqui de Recife (PE) para apresentar a proposta da oficina de sensibilização musical, eu não sabia falar nem ‘bom dia’ em Libras. Mas minha vontade de investigar a musicalidade que eu sempre soube que existia nos surdos era tão grande que apenas um mês depois de iniciar a oficina eu já estava criando um alfabeto musical em Libras, o “Musilibras”, e pelo qual eu represento as figuras de tempo musical com um sinal em Libras. Uma semibreve equivale a 4 tempos, a mínima equivale a 2 tempos, a semínima equivale a 1 tempo musical e assim por diante.

D.A: Quais os tipos de deficiência auditiva os integrantes da banda possuem?

B.G: Temos desde surdos profundos a deficientes auditivos em todos os níveis, com idades entre 14 e 30 anos.

D.A: É possível explicar melhor cada um dos instrumentos e como funcionam?

B.G: Para cada ritmo existe uma sequência de sinais visuais. Era preciso ficar regendo o grupo o tempo todo e aos poucos percebi que poderia criar uma ferramenta que fizesse esse trabalho por mim. Daí surgiu a ideia do metrônomo visual: um sequenciador eletrônico de 4 canais que adaptei a uma régua de madeira com quatro soquetes, nos quais coloco lâmpadas de cores e tamanhos variados de acordo com cada ritmo trabalhado. Desta maneira, é possível traduzir com as combinações de lâmpadas as frases que antes eu fazia com os sinais.

Com as lâmpadas pequenas, trabalhamos as figuras de tempo semibreve, mínimas e semínimas. Já com as lâmpadas grandes é possível trabalhar as colcheias e semicolcheias que são mais rápidas. Com as cores é possível trabalhar um elemento fundamental na aprendizagem do ritmo que é a intensidade do som, que em nossa experiência é trabalhada com as cores verde e/ou amarelo. A cor vermelha possibilita trabalhar a pausa musical, bem como a sobra de tempo das figuras semibreve e mínima, por exemplo.

Apresentei esta solução pedagógica inovadora no XI Congresso de Educação para Surdos do INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos) e em um encontro nacional de educadores musicais. Meu equipamento foi reconhecido como uma tecnologia assistiva para a educação musical brasileira.

D.A: Os instrumentos permitem o ensino de quais ritmos?

B.G: Com estes e outros recursos que utilizo nos cursos e oficinas de percussão corporal e sensorial dos alunos, conseguimos tocar os principais ritmos de nossa cultura popular, entre eles maracatu, frevo, ciranda e samba, pois desde o início percebi que tinha que promover um resgate da identidade cultural dos alunos que cresceram cercados por esses ritmos que tocam em Pernambuco o ano inteiro. No carnaval, mostramos esses ritmos no cortejo de nosso bloco que leva também o nome de Batuqueiros do Silêncio. Desfilamos na segunda-feira à noite pelas ruas do Recife antigo e, ao final do desfile, seguimos para a noite dos Tambores Silenciosos, uma cerimônia anual que reúne as principais nações de maracatu em saudação aos antepassados.

D.A: O que os membros da banda relatam ao vivenciar esse tipo de experiência? Como era a vida antes da banda e depois da banda?

B.G: O que ouço é que a autoestima deles está bem melhor hoje em dia. Muitos dizem que são pessoas mais felizes e se sentem mais capazes. Têm alguns casos curiosos: uma de nossas alunas revelou em uma entrevista para uma emissora de TV local que agora tinha o desejo de se tornar professora de música. Outro caso interessante é de um integrante que está no projeto desde a primeira oficina de 2009. Ele agora me veio com um novo desafio: quer tocar guitarra, porque cresceu acompanhando o pai roqueiro assistindo a vídeos de bandas de rock. Além disso, nosso repertório em palco é bem mais diversificado e explora ritmos e sonoridades bem mais contemporâneas, tais comodrum in bass, break beat, afro beat. Tudo isso aumentou o desejo de nosso futuro guitarrista. Já estou criando um sistema de cores para ele tocar os primeiros acordes.

D.A: Na sua opinião, que outros benefícios o contato com a música traz para pessoas que tem deficiência auditiva?

B.G: A prática musical atua em diversas áreas do desenvolvimento, trazendo melhorias nos campos da memória, atenção, raciocínio, concentração, percepção e coordenação motora. Isso ajuda os surdos e as pessoas com deficiência auditiva principalmente a transitar em cidades que não foram preparadas para eles.

D.A: Mesmo com tantos benefícios, um dos maiores desafios enfrentados por você e pelo grupo foi, incrivelmente, a falta de apoio dos pais dos adolescentes que faziam parte da banda. Por quê isso aconteceu?

B.G: Muitos pais e mães, infelizmente, acham mais fácil tentar oralizar o filho surdo ao invés de aprender sua linguagem e estimular o seu desenvolvimento entre os surdos. Durante minha primeira oficina, ao observar a evolução dos alunos com as técnicas e ferramentas que desenvolvi, convidei alguns pais para compartilhar com eles a alegria que eu estava sentindo e tive uma decepção incrível ao ouvir de alguns deles que eu estava perdendo meu tempo porque os filhos deles eram surdos e música não era para eles. Eles completavam dizendo que se a oficina não fosse obrigatória pela escola eles retirariam os filhos e assim o fizeram na primeira oportunidade. Tempo depois, quando realizamos as primeiras apresentações ainda pelo grupo “O som da pele”, alguns deles me procuraram e reconheceram que estavam errados em não acreditar na capacidade dos filhos deles. Esses meninos e meninas já são subestimados por toda a sociedade. Não merecem ser subestimados até em casa.

D.A: O que as pessoas que estão de fora do grupo relatam ao ouvir uma banda formada por surdos?

B.G: Todos estranham no começo. Alguns se perguntam do por quê do jogo de luzes no chão e não no teto do palco. Aos poucos vão percebendo o que está acontecendo e que se trata de um grupo de surdos fazendo música e se contagiam com nossa batucada inclusiva. Na primeira vez que estive num palco conduzindo um grupo de surdos, Terezinha Cavalcanti, funcionária da Secretaria de Cultura de Pernambuco, me falou emocionada: “Batman, esse seu trabalho extrapola a área da música, ultrapassa a esfera da educação e já é um caso de utilidade pública”. Isso foi determinante na minha carreira.

D.A: De que maneira pessoas não ouvintes e que apenas assistem a banda conseguem ‘sentir’ o ritmo que está sendo tocado pela banda?

B.G: Eu também sou luthier e, há 15 anos tenho a Casa do Tambor, um atelier onde fabrico instrumentos de percussão. Depois que iniciei o projeto Som da Pele que, em 2010, deu origem ao grupo Batuqueiros do Silêncio que mantêm uma agenda regular de apresentações em Recife, outras cidades de Pernambuco, já apresentou também em João Pessoa e duas vezes em São Paulo, percebi que teria que desenvolver um recurso que tornasse nossas apresentações mais inclusivas. Por isso, desenvolvi sensores que são adaptados às alfaias (tambores utilizados no maracatu de baque virado) e ligados a painéis de led, possibilitando as pessoas que não escutam, enxergar o ritmo e, dessa forma, também se divertir com o nosso som. Esse recurso também foi pensado para atrair mais surdos para o projeto.

D.A. Para quem ouve, parece absurdo incentivar a inclusão de deficientes auditivos em espetáculos musicais. Como explicar o contrário?

B.G: Quero com minha ação afirmativa de inclusão cultural de surdos, e através da música, retirar eles da condição de meros expectadores em eventos culturais, isso quando são lembrados. Pretendo transformá-los em protagonistas, estimulando sua criatividade e oferecendo mais uma ferramenta de comunicação e expressão e, desta forma, mudar um pouco esse cenário. Sou coordenador do Coletivo Livremente, formado por pessoas com outros tipos de deficiência e que também luta por seus direitos ao acesso a eventos culturais.

D.A. Você enfrenta desafios para dar continuidade à banda?

B.G: A banda “Batuqueiros do Silêncio” já está conseguindo uma visibilidade e tudo indica que tocaremos na festa de Réveillon de Recife esse ano. O nosso maior problema é conseguir apoio, patrocínio ou outro tipo de parceria para manter um calendário regular de atividades e atender a um número maior de surdos durante o ano. Nesses 6 anos de projeto, ainda não temos uma sede, sou griô de um ponto de cultura chamado “Mudando a vida com a arte”, no qual utilizamos o espaço da ONG para os ensaios. Atualmente, estou realizando uma oficina de musicalização com um grupo de jovens surdos da Escola Municipal Severina Lira, em parceria com o SESC Casa Amarela, porém apenas os alunos da escola tem acesso às oficinas. Desse grupo surgiu o “Batuque Surdo”, que apresentará em um novo bloco de carnaval formado por surdos, com o mesmo nome, e vai se especializar em sambas.

FONTE: Deficiência Auditiva

 

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